Gastrite crônica em cães tem controle sim!!

Nos últimos meses tenho visto que mais e mais gente chega ao blog procurando informações sobre gastrite em cães. Meu schnauzer, o Fritz, teve este problema (leia sobre nossa saga aqui) na época busquei e li todo tipo de informação sobre o assunto que consegui encontrar. Todos os textos falavam em xaropes e  rações terapêuticas.

Foi então que, pouco mais de um ano atrás, tive a sorte de encontrar o site Cachorro Verde e suas dietas caseiras, isso foi o que salvou o Fritz dos litros de xarope e dos vômitos frequentes e me salvou da falência, porque convenhamos, ração terapêutica não sai barato.


Relutância em se alimentar pode ser indicação de que algo não vai bem.

Hoje posso dizer que ele está 100% curado, pode até roubar porcarias sem passar mal. Mas não acho justo que eu tenha a imensa felicidade de ver meu peludinho bem enquanto tantos outros sofrem. E foi por isso pedi à querida Sylvia Angelico, veterinária e editora do Cachorro Verde para escrever um texto para o Barbas e Bigodes falando sobre gastrite em cães e tratamentos alternativos.

Enjoy!!

Gastrite em Cães

Desde fevereiro tenho atendido consultas de Nutrição de cães e gatos, sob supervisão da amiga médica-veterinária, Dra. Gabriela, da clínica Cantinho Animal. (Já estou formada, aguardando “apenas” o CRMV). E notei que um dos problemas de saúde que mais freqüentemente trazem cães e gatos à clínica para formulação de uma dieta caseira especial é o quadro de gastrite crônica.

Gastrite significa “inflamação do estômago” e pode ser aguda ou crônica. No quadro agudo, os sintomas – em geral, vômitos – ocorrem abruptamente, sendo que o cão aparentava estar bem até então. Pode ter a ver com algo que ele tenha comido e que não fez bem, como alimentos estragados (aquela fuçada no lixo), ingestão de insetos e de objetos não digestíveis, como tecidos, pedaços de brinquedos e pedrinhas. Até mesmo comer em excesso pode sobrecarregar o estômago e provocar gastrite aguda. Alguns cães recorrem à ingestão de grama nesses momentos para estimular o vômito.

Gastrite aguda mais leve é uma condição de bom prognóstico, que tende a se resolver dentro de 24 a 48 horas. Em princípio, basta manter água fresca à vontade e suspender alimentos por cerca de 8 horas e reintroduzir a dieta normal do pet, dividida em pequenas refeições ao longo de 1 ou 2 dias.

Entretanto, ao persistirem os vômitos e, principalmente, se o cão apresentar diarréia, dor abdominal, relutância em se alimentar ou apatia, o veterinário deverá ser consultado imediatamente. Exames como a radiografia, a ultrassonografia e a endoscopia podem revelar a existência de um objeto retido (corpo estranho) no estômago ou no intestino. Em casos assim, a retirada cirúrgica pode ser recomendada. Além disso, vômitos freqüentes e intensos levam à desidratação e perda de eletrólitos (sais minerais), e o cão poderá precisar receber fluidoterapia, o “soro na veia”.

Mas o quadro de gastrite com o qual mais me deparo em relação à formulação de dietas específicas é o da doença crônica. São pacientes que apresentam vômitos esporádicos, mas regulares: duas vezes por semana, por  exemplo. As causas podem ser inúmeras: uma gastrite aguda “mal curada”, infecção bacteriana (helicobacteriose, por exemplo), objetos retidos que estão no estômago há muito tempo, tumores no estômago ou intestino, verminoses, enterite ou colite, efeitos adversos de medicamentos (como certos antiinflamatórios), intolerância alimentar, dieta de má qualidade e podem até mesmo estar relacionadas a outros órgãos e sistemas do corpo, como pancreatite, doença renal, hepatite e disfunções metabólicas e comportamentais – sim, em muitos casos, a gastrite está relacionada ao estresse ou ao estado emocional, assim como ocorre conosco.

É por isso que antes de sair medicando você mesmo o seu peludo, com sais de frutas, “plasil” ou “luftal”, é fundamental submetê-lo a um cuidadoso exame clínico veterinário, com direito a avaliação física, exames laboratoriais e de imagem, dependendo do quadro. Os pets que atendemos em geral já passaram por um veterinário que descartou as causas mais graves e que pode ter chegado, ou não, a um diagnóstico. Aliás, quando não conseguimos descobrir a causa da gastrite crônica, chamamos de gastrite idiopática (“de causa não conhecida”).


Rações colorida são bonitinhas mas os corantes podem levar à reações alérgicas.

Uma observação importante: o ato de expelir alimento pela boca pode ser classificado como vômito ou como regurgitação. É importante conhecer as diferenças entre as duas situações para entendermos onde está localizado o problema. O vômito parece um ritual: o cão fica incomodado, começa a salivar, tem ânsia, sofre contrações abdominais, emite um som similar a uma tosse ao expelir o alimento, que está semi-digerido. A regurgitação é um processo passivo, que envolve principalmente o esôfago (tubo que conduz o alimento ao estômago). O cão come e a comida literalmente faz um “bate-e-volta”, imediatamente após a deglutição. Como não dá tempo de digerir, a comida volta intacta. A regurgitação, desde que não aconteça diariamente, é um processo fisiológico, normal.

A gastrite, seja ela aguda ou crônica, tem tratamento para controle ou resolução completa do quadro. Tudo depende do diagnóstico. Se ficar comprovado que o cão sofre de estômago sensível, uma possível intolerância alimentar e/ou estresse ou desordem de fundo emocional, gosto de indicar um tratamento homeopático com um profissional competente. E, muito importante: sempre indico mudança de dieta.

Às vezes atendemos cães vindos de veterinários que não consideraram a mudança de dieta como parte do tratamento. Esses pacientes chegam para nós com uma sacolinha de medicamentos e, quando muito, lhes foi sugerida a mudança da marca da ração seca. Pela minha experiência – antes de atender, já acompanhava leitores do Cachorro Verde – a transição de um alimento industrializado para outro freqüentemente não faz diferença, a não ser em se tratando de rações úmidas terapêuticas específicas para quadros gastrintestinais. O problema é que essas rações são bastante caras. Felizmente, uma dieta caseira específica para gastrite crônica costuma ser muito mais em conta que rações terapêuticas ou Premium. E o que é melhor: os resultados via de regra são fantásticos. Não sei se dei sorte, mas até hoje, todos os cães com gastrite que passaram a receber uma dieta caseira específica, melhoraram dramaticamente, sendo que muitos parecem realmente ter se curado do problema!


Evite petiscos industrializados em geral, principalmente os com farinhas.

 Minhas dicas:

    • Vômitos agudos devem ser observados. Retire os alimentos por 6-8 horas, mantendo água à vontade, e, se o cão não vomitar mais, ofereça comida em pequenas quantidades, várias vezes ao dia. Não ofereça petiscos. A persistir o vômito ou aparecerem outros sintomas, como diarréia e apatia, procure o veterinário.
    • Seu cão apresenta vômitos regulares – por exemplo, 2 vezes por semana? Consulte o veterinário para descartar as causas que citei anteriormente, como verminoses ou objetos retidos no estômago.
    • Foi fechado o diagnóstico de gastrite crônica com possível fundo alimentar ou emocional? Procure um bom homeopata veterinário e um profissional com experiência em Nutrição Clínica para elaborar uma dieta caseira específica para o quadro de seu peludo.
    • Suspenda pães, bolos, “ossos” de couro e de palito e petiscos industrializados em geral, principalmente os com farinhas – do tipo “Biscrok”, e alimentos gordurosos.
    • A dieta caseira que indico – cozida, com proteína animal de alta digestibilidade em quantidade moderada, e baixo teor de gordura – deve ser introduzida gradativamente. Dependendo do quadro, uma fonte de proteína animal inédita, que ele nunca tenha experimentado, pode ser indicada. (Eu não poderia publicar aqui uma receita, porque não seria ético, uma vez que esse tipo de dieta faz parte de um tratamento clínico. Mas quem se interessar pode me escrever: contato@cachorroverde.com.br.
    • O ideal é dividir o total da dieta do cão com gastrite em ao menos três refeições mornas ao dia, para facilitar o processo digestivo.
    • Um complemento que pode ser benéfico ao quadro são cápsulas de óleo de peixe, fonte de ômegas-3 EPA e DHA, que ajudam a reduzir quadros de inflamação. Consulte o veterinário para obter a dosagem adequada ao seu cão.
    • Uma vez solucionada a gastrite, uma dieta caseira com variações – e até mesmo crua, como a Alimentação Natural – poderá ser instituída. Mas tudo depende da evolução do quadro e da resposta do animal. Talvez os ossos da dieta crua precisem ser oferecidos triturados, por exemplo, e a gordura, restrita a teores mais modestos.
    • Também é interessante, sempre que for possível, evitar vacinar desnecessariamente o cão que sofre de gastrite ou qualquer inflamação crônica. Estudos mostram que a intensa estimulação imune provocada pela vacinação pode agravar esses quadros ou provocar recaídas em um animal bem controlado. Como mínimo, evite vacinar o cão em crise de gastrite. E quando tiver que fazê-lo, em vez de aplicar a vacina múltipla e a antirrábica na mesma consulta, procure espaçar cada aplicação com um mês de intervalo. Para saber mais sobre excesso de vacinas, seus riscos e como evitá-los, clique aqui.

Finalizando: gastrite crônica tem controle. E, em minha opinião, tirar gradativamente o cão da ração convencional - alimento seco, preparado com farinhas, subprodutos e aditivos potencialmente prejudiciais - e instituir uma dieta caseira balanceada, de alta digestibilidade e adequada ao quadro é fundamental para prevenir ou combater gastrites agudas ou crônicas no seu melhor amigo!

imagens: Getty Images