O efeito Lassie
Quem nunca assistiu um filme ou seriado como 101 Dalmatas, Lassie, Rin tin tin, Benji, Rex etc… e pensou, queria ter um cachorro assim!
Pessoas esclarecidas sabem que isto é uma fantasia e que mesmo com todo adestramento e educação do mundo um cão de verdade nunca vai ser igual ao da tv.

Mas será mesmo? Esses dias estava lendo o livro “The Culture Clash” de Jean Donaldson (que alias, super recomendo!) quando me dei conta do quão essa ideia do cachorro a la Walt Disney está impregnada em nosso sub consciente. Percebi que mesmo sem querer estava atribuindo certas emoções ao meu cachorro que ele simplesmente não é capaz de sentir.
Para que entendam melhor o que quero dizer cito dois trechos do livro:
“O cão Walt Disney é super inteligente, ético, é capaz de planejar vingança, soluciona problemas complexos e entende o valor dos objetos na casa do dono. Ninguém quer um cachorro B.F.Skinner (*): uma caixa preta com duas funções: entrada e saída, é lógico que esse não é o membro peludo de nossas familias.”
Walt Disney vs. B.F. Skinner
Um cão é punido toda vez que é pego roendo os moveis. Agora o cão evita faze-lo quando o dono está em casa mas se torna destrutivo quando deixado sozinho. Quando o dono retorna e vê o prejuizo o cão se encolhe, coloca as orelhas para trás e fica cabisbaixo.
Versão Walt Disney: O cão aprende por punições que roer moveis é errado. O cão fica chateado por ter ficado sozinho e, para se vingar do dono, rói os moveis quando o dono sai. Ele deliberadamente faz uma coisa que sabe estar errada. Quando o dono retorna o cão se sente culpado pelo que fez.
Versão B.F. Skinner: O cão aprende que roer moveis é errado quendo o dono está presente e certo quando o dono sai. O cão fica levemente ansioso quando deixado sozinho e se sente melhor ao roer. Isto também ajuda a passar o tempo. Quando o dono retorna, o cão mostra sinais de submissão para evitar uma punição que ele aprendeu que pode acontecer nessas horas. O comportamento exibido com a chegada do dono e/ou pre-punição é simplesmente um prognostico: o cão sabe que vai ser punido mas não sabe porque.
Ou seja, atribuimos sentimentos de vingança e remorso aos cães sem pensar que eles não possuem tais sentimentos. Queremos que eles tenham cerebros do tamanho de um melão enquanto, na verdade, eles tem um do tamanho de um limão.
Pode acontecer nas melhores familias, e pode levar a uma simples dificuldade no adestramento. Mas esta ideia do cão perfeito, leva pessoas menos esclarecidas a comprarem um dalmata ou collie imaginando serão como os da tv e quando estes cães se comportam como os animais que realmente são latindo, mordendo, roendo preciosos sapatos, são abandonados ou até eutanasiados.
Tendemos a pensar que antropomorfismo (atribuir caracteristicas e comportamentos típicos humanos aos cães) é apenas vesti-los com roupinhas e apetrechos, tratando-os como bebes, mimando e deixando fazer o que bem entenderem. O que não percebemos é que mesmo sem fazer essas coisas muitos de nós estamos tratando nossos cães como gente quando pensamos neles como seres superiores, super espertos, de boa indole e que só querem nos agradar, enquanto são apenas animais, egoístas ingênuos que só pensam em si mesmos e nos agradam em troca de casa e comida.
É dolorido pensar que nosso melhor amigo apenas nos agrada por interesse, mas isso não quer dizer que não sejam inteligentes a sua própria maneira e que não podemos amá-los como sempre fizemos. Temos apenas que assumir a responsabilidade de aprender sobre suas necessidades, ter noções de como aprendem e como mudar seu comportamento, ajudando-os a fazerem parte de nossas vidas sem subjugar sua natureza animal.
(*) B.F.Skinner foi um autor Americano, pioneiro em pscicologia experimental e propositor do Behaviorismo Radical e comportamento operante. Apesar de suas ideias serem um pouco radicais para humanos, podem ser muito bem aplicadas no adestramento canino.













